Entrevista: Irineu Franco Perpétuo

O jornalista Irineu Franco Perpétuo, que escreve sobre música erudita para o jornal Folha de S. Paulo concedeu uma entrevista ao blog da Sociedade Cultura Artística. A seguir, ele fala sobre o início de sua carreira, as características de um texto crítico e as facilidades e benefícios que a internet trouxe para o seu trabalho e para a cultura de uma maneira geral. Irineu também colabora com a revista Bravo!, é correspondente da revista Ópera Actual, de Barcelona, e inaugurou esta semana uma coluna no site Concerto.

Você é músico? Qual sua relação com a música e como começou a escrever sobre o assunto?

Não sou músico, nem venho de família musical – meus pais nunca ouviram música erudita em casa, por sinal. Minha relação com a música sempre foi de um apreciador entusiasmado. Formei-me em jornalismo na Cásper Líbero, em 1992. No ano seguinte, fui selecionado para fazer o trainee da Folha de S.Paulo, e, em 31 de dezembro de 1993, chamado para trabalhar no Acontece, o roteiro cultural do jornal. No ano seguinte, comecei a escrever para a Ilustrada. Minha primeira matéria foi sobre literatura russa, mas logo a música erudita se definiu como o campo principal de minha atuação, como vem sendo até hoje, tanto na Folha, como na revista Bravo! e na revista Ópera Actual, de Barcelona.

Já li declarações suas sobre facilitar a linguagem para o leitor. Como faz isso? Como foge dos jargões específicos e “literatices” de um texto sobre música erudita?

Eu acho que o jornalista que escreve sobre música erudita é um jornalista como qualquer outro. Ele tem que usar seu conhecimento para relatar (ou seja, fazer trabalho de repórter, reportar), de maneira inteligível para o leitor, o acontecimento a que teve oportunidade de presenciar. O jargão a gente usa, claro, quando necessário, e empregando a velha e boa regra do bom senso para saber se tem ou não que ser didático. Por exemplo: assim como um repórter esportivo não tem que explicar o que é pênalti, ou um repórter econômico não precisa dizer o tempo todo o que é taxa de juros, eu também não preciso ficar explicando que a viola de arco, do quarteto de cordas, não é o mesmo instrumento que a viola dedilhada, da música caipira. Agora, o excesso de jargão, evidentemente, afasta e distancia o leitor “leigo”, “comum”, que forma o grosso do público de um veículo não-especializado, como é a Folha. Já a “literatice” eu acho um vício neoparnasiano que acomete todo o jornalismo cultural – é filhote de uma concepção pedante e rebuscada do que seria “escrever bem”, e que não me parece estar de acordo com o caráter direto e objetivo que deveria ter o bom texto jornalístico.

Como foi sua inserção na internet? Chegou a fazer algum blog?

Até esta semana, minha inserção na internet era a de mero usuário – nunca tive blog. Estou começando, até dezembro, uma experiência como articulista do site da revista Concerto, mas, como a coisa toda se iniciou mesmo nesta semana (segunda-feira postei minha primeira coluna), ainda é cedo para falar alguma coisa a respeito.

No que a internet ajuda e atrapalha o seu trabalho hoje? O que muda para o trabalho de um crítico ter a interatividade proporcionada pela internet?

A internet não atrapalha, não – e ajuda um MONTÃO. Com relação a meu início de carreira, a internet deixa o acesso à informação muito mais fácil e rápido. A gente não tem mais desculpa para ser desinformado, ou para escrever besteira – estamos a um clique dos compositores e intérpretes sobre os quais devemos escrever. Agora, como tenho escrito essencialmente para a mídia “tradicional” (jornais e revistas), ainda não senti efeitos diretos da tal interatividade no meu trabalho.

Como você vê a relação entre música erudita e internet? Vídeos no youtube, mais informações disponíveis…Quais são os pontos positivos e negativos, em sua opinião?

A internet tem sido uma bênção, não só para a música erudita, mas para qualquer pessoa que se interesse por cultura em geral. Graças ao avanço tecnológico, estamos na iminência de ter digitalizado todo o patrimônio cultural da Humanidade: fonogramas, fotos, vídeos, textos. Parece uma versão melhorada, mais abrangente e de acesso mais fácil ainda do que o maravilhoso Museu Imaginário pensado por André Malraux em seu livro homônimo.

Sob esse prisma, eu não vejo ponto negativo na internet, não. Ponto negativo eu vejo é nas mentes proprietárias que querem restringir nosso acesso ao acervo do Museu Imaginário, e nos impedir de compartilhar seu conteúdo. Ponto muito negativo eu vejo, portanto, nesse absurdo projeto de regulamentação da internet do senador Eduardo Azeredo, que, sob o pretexto de combater a pedofilia, pretende criminalizar o compartilhamento de informações e coibir a atividade criativa na rede.

Como é sua interação com os leitores que te encontram no Orkut?

Eu respondo a todo mundo que me procura no Orkut. Quem mais aparece por lá é gente que me viu na televisão, como jurado de Prelúdio, o programa de calouros de música clássica da TV Cultura. Quanto ao leitor de jornal, das duas, uma: ou ele não está no Orkut, ou ele não se importa muito comigo.

Deixe uma resposta.